CANGACEIROS

Thursday, July 06, 2006

Nota: as artes e texto aqui anexados são parte integrante do livro Relevos de Piranhas ainda não publicado. Portanto, não podem ser utilizados no todo ou em parte sem autorização do autor
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Lampião - rei do Cangaço
O mais temido dos cangaceiro que mandava
e desmandava no sertão nordestino
Essa história já se ouviu contar, foi lida e relida, virou filme, virou arte, música, pintura, literatura e até cordel. Agora Bezerra Neto a reescreve e pinta. Coloca-a em nova moldura, nova roupagem, novas cores e novo brilho. É na sua arte que Lampião vira quadro de parede, posters; que Maria Bonita se torna mais bonita, ao lado do seu “capitão”, o “rei do cangaço.” Corisco - o Diabo Louro - e Dadá, formam o segundo casal de “reis” do Sertão.

O escritor e artista plástico foi buscar no recôndito do Sertão a inspiração para reescrever e pintar a história do cangaço, cujo principal protagonista - Lampião - virou mito e a sua fama de herói, ou de bandido é difícil de ser apagada da memória do povo. Continua um vulto que se eleva pela coragem de enfrentar o latifúndio dos “coronéis”, dos donos das cabeças. Borravam-se todos ante a ameaça de Lampião. Este cobrava por suas vidas e aqueles pagavam para continuar vivendo. Viravam coiteiros e de certa forma cúmplices das atrocidades que se vinham cometendo em nome do cangaço por esses sertões afora, numa área de 700 mil quilõmetros quadrados, compreendendo sete estados: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba Rio Grande do Norte e Ceará. Lampião subverteu a ordem das coisas. Latifúndios, (leia-se: “coronéis”, grandes fazendeiros) que durante séculos mandavam e desmandavam nos sertões, viram-se, de repente, mercê da vontade daquele que realmente imprimia respeito e medo: Virgulino Ferreira da Silva, vulgo “Lampião”, cuja palavra era lei. Ele comandava uma pequena legião de 50 cangaceiros, enfrentando forças policiais cujos contingentes suplantavam a casa de 4.000 soldados em todos os territórios por onde passava.

Durante as décadas de 20 e 30 o Cangaço (etnologicamente, gênero de vida levada pelos cangaceiros), correu a ruidoso galope pelas brenhas e caatingas do Sertão nordestino. Causava espanto e medo entre as às populações sertanejas, onde predominavam, de um lado, a aridez da terra, com suas caatingas brabas, de espinhos e chão esturricado e, do outro, a pobreza e a natureza rude do homem local, este já submetido a cruel sofrimento pelos rigores da seca. Por onde passava o cangaço ia deixando marcas de mortes, numa onda de violência tão brutal que causava desespero, tensão, angústia e medo; as pessoas só se valendo da proteção de Deus e do “Padim Ciço” para sua salvação. A situação agravou-se ainda mais quando Lampião assumiu a direção do bando de Sinhô Pereira, em 1922.

O ódio e desejo de vingança de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, coloca-vam as populações a seus pés, debaixo de ordem e sob a mira de seu fuzil, que cuspia fogo. Ele ordenava e seus “cabras” inva-diam cidades, fazendas e propriedades, saqueando, matando e esfolando aqueles que se recusassem atender aos seus ex-torsivos pedidos de dinheiro; muito dinheiro era o que mais lhe dava prazer em arrancar das barbas dos coronéis latifundiários e das pessoas aquinhoa-das de recursos. Se não lhe dessem o que pedia os cobrados pagavam com suas vidas ou passariam por humilhações.

A história do Cangaço é a própria história de Lampião que, por se tornar um fenômeno social dos mais estudados da cultura nordestina, tem seus altos e baixos; verdades e mentiras. Tornou-se uma lenda viva cuja presença não sai da memória do povo, principalmente do povo sertanejo. As façanhas do famigerado bando de cangaceiros são passadas de pais para filhos, isto perdurando-se através dos tempos e fazendo parte inseparável da cultura e do anedotário cotidiano.

Virgulino, entretanto, não foi o primeiro chefe de cangaceiros, como alguns podem pensar. Antes dele, outros já percorriam os sertões com uma cambada de evadidos da justiça pra-ticando toda sorte de barbaridades. Os mais conhecidos: Lucas da Feira (bandido que tinha o hábito de pendurar suas vítimas pelos os lábios nos galhos das árvores) assim chamado porque era natural de Feira de Santana/BA); Salva Terra (que atuava principalmente no sertão paraibano); Cabeleira (José Gomes), nascido em 1751 em Glória do Goitá-PE; Jesuíno Brilhante (1844); Adolfo Meia Noite, que era de Afogados de Ingazeira, Sertão do Pajeú de Flores-PE; Antonio Silvino e Sinhô Pereira (este último abandonando a vida do cangaço para se tornar militar em Goiás, do qual Lampião foi discípulo e herdeiro).

Quem foi Lampião?

Virgulino Ferreira da Silva nasceu no dia 7 de julho de 1897, ano que marcou o fim da guerra de Canudos, onde prevaleciam as profecias de Antonio Conselheiro, o excêntrico beato e líder político-religioso que inspirou a obra de Euclides da Cunha - os Sertões - no sítio Passagem das Pedras, às margens do riacho São Domingos, pedaço de terra desmembrado da fazenda Ingazeira, em Vila Bela, atualmente município de Serra Talhada/PE. Era o terceiro filho do casal José Ferreira da Silva e Maria Lopes, cuja seqüência, por datas de nascimento, é a seguinte: 1895 - Antonio Ferreira dos Santos; 1896 - Livino Ferreira da Silva; 1897 - ele, Virgulino; 1899 - Virtuosa Ferreira; 1902 João Ferreira dos Santos (o único dos homens que não entrou para o cangaço); ???? - Angélica Ferreira; 1908 - Ezequiel Ferreira; 1910 - Maria Ferreira (conhecida como Mocinha); 1912 - Anália Ferreira. Todos os filhos do casal nasceram nesse mesmo sítio, que ficava a uns 200 metros da casa de dona Jacosa Vieira do Nascimento e Manoel Pedro Lopes, avós maternos de Virgulino. Por causa dessa proximidade o menino residiu com eles durante grande parte de sua infância. Seus avós paternos eram Antonio Ferreira dos Santos Barros e Maria Francisca da Chaga, que residiam no sítio BaixaVerde, na região de Triunfo, em Pernambuco. Teve uma infância normal e igual a qualquer outra criança da época, correndo com frivolidade à beira do riacho perto de sua casa, de águas e correnteza mansas, brincando com a meninada de cangaceiros e soldados (usando bodoques e balas de carrapateira como equipamentos de guerra). Os “bandos” se dividiam em ataques simulados: soldados de um lado e bandidos do outro, fazendo-se uma guerrilha entre “mocinhos e bandidos”. Por esse tempo, a notícia da existência do cangaço já havia chegado a todas os bibocas e, por esta razão, as crianças eram in-fluenciava na pratica dessa brincadeira. A meninada se divertia a valer nesses conchavos de traquinagem, sem que jamais pudesse imaginar que daquele meio sairia, algum tempo mais tarde, o maior de todos os cangaceiros que já existiram. Quando ia passarinhar, a criançada fazia bala de barro para o bodoque, barro esse retirado das beiradas do rio, que dava um massapê visguento e resistente depois de seco ao sol. Nessa brincadeira de “cangaceiro e soldados” queria sempre ser o maior: o chefe dos soldados, para enfrentar os bandidos. E, quando capturava algum da turma contrária, amarrava-o numa árvore bem seguro. Nisso foi crescendo e, quando já era quase rapaz, deixando o bodo-que de lado, foi à escola onde apenas passou pelo aprendizado das primei-ras letras, tendo como professores “seu” Domingos Soriano e Justino de Nenéu. Freqüentou as aulas durante o curto período de três meses, mas pelo menos aprendeu a ler e escrever, o que viria lhe proporcionar grande benefício no futuro. Teria sido simplesmente um artesão de couro (fazedor de alpercatas, selas, arreios e vestimentas para vaqueiros), profissão que já dominava muito bem, depois de ter-se iniciado como almocreve (assim chamados os que viviam do trabalho de transportar cachaça em barris, rapadura e mel de cabeça no lombo de burros, além de outras mercadorias), se o destino não tivesse mudado o rumo de sua vida, enveredando-o no caminho do crime.

Como tudo começou:

Quando contava apenas 17 anos de idade, acusou seu vizinho de roubar alguns bodes e isso criou uma rixa envolvendo as famílias Nogueira, Saturnino e Ferreira, cujo mais acirrado contendedor era Zé Saturnino. Depois desse acontecimento e sentindo-se perseguido com os seus, o pai de Virgulino, José Ferreira, resolveu abandonar o pequeno sítio onde morava mudando-se com os seus para Água Branca, no alto sertão de Alagoas. Pensava que, com isso, afastar-se-ia da ferrenha intriga. Engano seu, pois seus perseguidores não lhe deram trégua. Dois para três anos depois (1917), José Ferreira – o pai – Maria Lopes – a mãe – e mais dois de seus irmãos menores foram barbaramente assassinados por seus inimigos na porta de casa, no lugar conhecido como Poço Negro, município de Água Branca. A sede de vingança tomou conta de Virgulino e ele veio a cometer alguns crimes em represália, indo se homiziar no bando de cangaceiros de Sinhô Pereira para se safar da Justiça. Daí por diante foi só uma questão de tempo para se tornar no famigerado bandido que praticava toda sorte de crimes, matando, esfolando e assaltando. Tornara-se o mais temido dos cangaceiros que assustavam os sertões, pelas barbaridades que cometia. Seu bando chegava às cidades como os fora-da-lei dos filmes western amaricanos, fazendo arruaças, barbarizando e metendo medo em tudo que era lugar onde passava. Caso não fosse satisfeito plenamente no que queria, começava uma onda de saques, matanças, incêndios, exterminação de rebanhos, entre outras atrocidades. Arrancava olhos, cortava orelhas e línguas, marcando rostos de mulheres a ferro em brasa – daquelas que estivessem usando vestidos ou cabelos curtos. Mas se fossem bem acatadas as suas ordens, mandava fazer arrasta-pé, onde todos brincavam às vezes por dois ou três dias. O fole de oito baixos não parava de tocar e a cabroeira se divertia ao som do xaxado, que era dança mesmo de cangaceiro. Fole, zabumba, reco-reco e pandeiro, acompanhavam as toadas:

I

“É Lamp, é Lamp, é Lamp,

é Lam, é Lampe é Lampião...

seu nome é Virgulino,

o apelido é Lampião”...

II

“Se entrega corisco,

eu não me entrego não,

eu não sou nenhum passarinho

prá viver lá na prisão...

Ai, ai, meu Deus

Eu não me entrego não

Que não sou nenhum passarinho

Prá viver lá na prisão...”

III

“Acorda, Maria Bonita

acorda, vem fazer café,

que o dia já vem raiando,

e a polícia já está de pé”...


Depois, quando o “Capitão” achava que era hora de terminar a festa, ele e todos os seus comandados montavam em seus cavalos e partiam, depois de dar pouco de dinheiro aos pobres, numa atitude de repartir o que tomavam dos endinheirados.

Não é gente; é Lampião!...

Era um rapazola ainda quando entrou para o cangaço e, certa feita, ao enfrentar uma volante policial, seu fuzil não parava de cuspir balas, espirrando-as com veemência incessante. Vendo-o manejar com tamanha habilidade a sua arma no meio da noite escura, um soldado deixou escapar: “aquilo lá não é gente e a sua espingarda parece mais um lampião de gás, pela clarera que faz!” Foi a partir daí que Virgulino ganhou o apelido de “Lampião.” Também era conhecido como “capitão” Virgulino. Sua fama correu a grande galope pelo mundo inteiro.

Quando Sinhô Pereira, resolveu “aposentar-se” do Cangaço, em junho de 1922, passou o comando do grupo a seu melhor homem. Então, Lampião o escoltou até a fronteira do Piauí com Goiás (onde hoje fica o Estado de Tocantins). Depois voltou como chefe do bando que se compunha de apenas 12 homens, contando com ele próprio. Como ainda não dispunha de recursos que pudessem sustentar seu pessoal, mandou pedir certa quantia em dinheiro à Dona Joana Vieira de Siqueira Torres, baronesa de Água Branca, para a compra de provisões. Feita a colaboração, ela jamais seria incomodada novamente, nem por ele nem por qualquer um outro do cangaço; teria mandado dizer-lhe.
A Senhora de Água Branca – município ao qual pertencia a Vila de Piranhas – entretanto, não atendeu ao seu pedido e, pior: mandou um recado desaforado pelo mesmo portador endereçado àquele que tentou extorquir de suas posses: “Diga a seu chefe que o dinheiro que tenho é para compra de munição com a qual pretendo arrancar-lhe a cabeça”. Depois, para se
prevenir, pediu ao Governo da Província que mandasse reforçar a guarda de seu território com uma força policial mais equipada de homens e armas.
Ao ouvir do mensageiro o recado da Baronesa, Lampião virou-se numa fera bravia, com vontade de esganar. E logo quis dar o troco: mandou comprar algumas redes e as preparou segundo os costumes locais de carregar mortos, onde um madeiro é colocado de um punho a outro, sendo carregado nos ombros por dois homens robustos. Preparou tudo com esmerado cuidado, seus homens vestindo-se como pessoas comuns do lugar, com roupas simples e chapéu de palha, descalços, ou arrastando sandálias leco-leco. Fuzis, punhais e cartucheiras eram carregados no lugar onde deviam estar os mortos, enrolados em panos untados com groselha para aparentar sangue, dentro das ditas redes. Dirigiram-se esses à porta da delegacia de polícia e, aos berros, um dos cabras, disfarçado, gritou para o soldado de plantão: “acuda, praça! Mande gente lá para as bandas do povoado da Várzea, que a cabroeira de Lampião está acabando com tudo ali; mataram estes daqui e ainda há mais gente morta aos montes. Ande depressa, homem de Deus!”
O despreparado soldado chamou imediatamente o corneteiro, que tocou reunir. Foi o momento propício para a execução do plano de Lampião: as armas foram retirados das redes e empunhadas contra o pelotão policial, que já estava perfilado, pronto para sair à procura dos bandidos. Aí, enquanto a polícia era rendida, outra parte do grupo já havia entrado na cidade e agia no saque à casa da Baronesa. Irreverente, Lampião foi até ela e, fitando-a com severidade, soltou o vozeirão: - Então, Senhora Baronesa, vai arrancar-me a cabeça agora? Venha, vamos dá um volta pela cidade para que vosmecê e todos daqui saibam qui cum o capitão Virgulino não se brinca nem se manda recado desaforado”. E fez a respeitável senhora, dona de notório prestígio público, segurar seu braço e andar assim com ele desfilando pela cidade. – (este foi o primeiro de um sem-número de assaltos cometidos pelo bando de Lampião. Aconteceu em 28/06/1922, poucos dias depois que tinha assumido o comando do grupo de Sinhô Pereira, jovem ainda, aos 25 anos de idade).

Lampião visto por Virgulino


Durante uma visita que fez ao padre Cícero Romão, em Juazeiro, (1926), Lampião foi ouvido pelo médico do Crato, Dr. Octacílio Macedo, cujo material é considerado pelos historiadores – inclusive por José Anderson Nascimento, que republicou a entrevista – como uma peça fundamental no estudo e no conhecimento do fenômeno do cangaço, valendo à pena serem reproduzidos neste livro alguns dos trechos mais importantes, numa linguagem mais rebuscada e regionalizada, para melhor compreensão dos leitores.
Eis o que foi extraído do diálogo de Lampião com seu entrevistador:
- Que idade tem?- Vinte e sete anos.
- Há quanto tempo está nesta vida?- Desde 1919, quando me juntei ao grupo de Sinhô Pereira.
- Não pretende abandonar a profissão?A esta pergunta Lampião respondeu com outra:- Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este "negócio", ainda não pensei em abandoná-lo.
- Em todo o caso, espera passar a vida toda neste "negócio"?- Não sei... talvez... preciso porém trabalhar ainda uns três anos. Tenho alguns amigos que quero visitá-los, o que ainda não fiz, esperando uma oportunidade.
- E depois, que profissão adotará?- Talvez a de negociante.
- Não se comove a extorquir dinheiro e a "varrer" propriedades alheias?- Oh! Mas eu nunca fiz isto!... Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir amigavelmente a alguns camaradas.
Nesta altura chegou o 1° tenente do Batalhão Patriótico de Juazeiro e chamou Lampião para um particular. De volta avisou o facínora:
- Só continuo a fazer este depoimento com ordem do meu superior. (Sic!)
- E quem é seu superior? - ! !- Está direito...
Quando voltamos algumas horas depois à presença de Lampião, este já se encontrava instalado em casa do historiador João Mendes de Oliveira. Uma enorme massa popular se concentrava defronte a casa. Penetramos por um portão de ferro. Veio Lampião ao nosso encontro, dizendo:
- Vamos para o sótão, onde conversaremos melhor.
Subimos uma escadaria de pedra até o sótão. Aí notamos, seguramente, uns quarenta homens de Lampião, uns descansando em redes, outros conversando em grupos, todos, porém, aptos à luta imediata: rifle, cartucheiras, punhais e balas...
- Desejamos um autógrafo seu, Lampião.- Pois não.
Sentado próximo de uma mesa, o bandido pegou da pena e estancou, embaraçado.
- Que qui escrevo?- Eu vou ditar.
E Lampião escreveu com mãos firmes, caligrafia regular.
"Juazeiro, 6 de março de 1926... Para: o Coronel...
Lembrança de eu, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião".
Os outros facínoras observavam-nos, com um misto de simpatia e desconfiança. Ao lado, como um cão de fila, velava o homem de maior confiança de Lampião, Sabino Gomes, seu lugar-tenente, mal-encarado.
-É verdade, rapazes! Vocês vão ter os nomes publicados nos jornais em letras redondas...
À esta afirmativa, uns gozaram o efeito dela, porém parece que não gostaram da coisa.
- Agora, Lampião, pedimos para escrever os nomes dos rapazes de sua maior confiança.- Pois não. E para não melindrar os demais companheiros, já que todos me merecem igual confiança, poderia escrever o nome dos companheiros que estão há mais tempo comigo.
E escreveu:
1 - Luiz Pedro; 2 – Jurity; 3 – Chumbinho; 4 – Nevueiro; 5 – Vicente; 6 –Jurema. E o estado maior: 1 - Eu, Virgulino Ferreira; 2 - Antônio Ferreira; 3 - Sabino Gomes.
Passada a lista para nossas mãos fizemos a chamada dos cabecilhas, fulano, cicrano, etc.
Todos iam explicando a sua origem e os seus feitos. Quando chegou a vez de Chumbinho, apresentou-se-nos um rapazola, quase preto, sorridente, de 18 anos de idade.
- É verdade, Chumbinho! Você, rapaz tão moço, foi incluído por Lampião na lista dos seus melhores homens... Queremos que você nos ofereça uma lembrança...
Chumbinho gozou o elogio. Todo humilde, tirou da cartucheira uma bala e nos ofereceu como lembrança...
- No caso de insucesso com a polícia, quem o substituirá como chefe do bando?- Meu irmão Antônio Ferreira ou Sabino Gomes...
- Os jornais disseram ultimamente que o tenente Optato, da polícia pernambucana, tinha entrado em luta com o grupo, correndo a notícia oficial da morte de Lampião.- É, o tenente é um "corredor". Ele nunca fez a diligência de se encontrar com nós; nós é que lhe matemos alguns soldados mais afoitos do seu grupo.
- E o cel. João Nunes, comandante geral da Polícia de Pernambuco, que também já esteve no seu encalço?- Ah, este é um "velho frouxo", pior do que os outros...
Neste momento chegou ao sótão uma romeira (devota de Pe. Cícero Romão), conduzindo um presente para Lampião. Era um pequeno "registro" e um crucifixo de latão ordinário. A velinha, se apresentando: "está aqui, seu coroné Lampião, que eu truve prá vosmecê".
- Este santo livra a gente de balas? Só me serve si for santo milagroso.
Depois, respeitosamente, beijou o crucifixo e guardou-o no bolso. Em seguida tirou da carteira um nota de 10$000 e gorjeteou a romeira.
- Que importância já distribuiu com o povo do Juazeiro?- Mais de um conto de réis.
Nesse ponto da entrevista Lampião atentou falar mais de sua vida:
- Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva e pertenço à humilde família Ferreira do Riacho de São Domingos, município de Vila Bela. Meu pai, por ser constantemente perseguido pela família Nogueira e em especial por Zé Saturnino, nossos vizinhos, resolveu retirar-se para o município de Água Branca, no estado de Alagoas. Nem por isso cessou a perseguição.
Em Água Branca, meu pai, José Ferreira, foi barbaramente assassinado pelos Nogueira e Saturnino, no ano de 1917. Não confiando na ação da justiça pública, por que os assassinos contavam com a escandalosa proteção dos grandes, resolvi fazer justiça por minha conta própria, isto é, vingar a morte do meu progenitor. Não perdi tempo e resolutamente arrumei-me e enfrentei a luta. Escolhi gente das famílias inimigas para matar e efetivamente consegui dizimá-las consideravelmente.
Sobre os grupos a que pertenceu:- Já pertenci ao grupo de Sinhô Pereira, a quem acompanhei durante dois anos. Muito me afeiçoei a este meu chefe, porque é um leal e valente batalhador, tanto que se ele ainda voltasse ao cangaço iria ser seu soldado.
Sobre suas andanças e seus perseguidores:- Tenho percorrido os sertões de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, e uma pequena parte do Ceará. Com as polícias desses estados tenho entrado em vários combates. A de Pernambuco é disciplinada e valente, e muito cuidado me tem dado. A da Paraíba, porém, é uma polícia covarde e insolente. Atualmente existe um contingente da força pernambucana de Nazaré que está praticando as maiores violências, muito se parecendo com a força paraibana.
Referindo-se a seus coiteiros, Lampião esclareceu:
- Não tenho tido propriamente protetores. A família Pereira, de Pajeú, é que tem me protegido, mais ou menos. Todavia, conto por toda parte com bons amigos que me facilitam tudo e me consideram eficazmente quando me acho muito perseguido pela Polícia.
- Se não tivesse de procurar meios para a manutenção dos meus companheiros, poderia ficar oculto indefinidamente, sem nunca ser descoberto pelas forças que me perseguem.- De todos meus protetores, só um traiu-me miseravelmente. Foi o coronel José Pereira Lima, chefe político de Princesa. É um homem perverso, falso e desonesto, a quem durante anos servi, prestando os mais vantajosos favores de nossa profissão.
A respeito de como mantém o grupo:- Consigo meios para manter meu grupo pedindo recursos aos ricos e tomando à força aos usurários que miseravelmente se negam de prestar-me auxílio.
Se estou rico?- Tudo quanto tenho adquirido na minha vida de bandoleiro mal tem chegado para as vultuosas despesas do meu pessoal - aquisição de armas, convindo notar que muito tenho gasto também com a distribuição de esmolas aos necessitados.
A respeito do número de seus combates e de suas vítimas disse:- Não posso dizer ao certo o número de combates em que já estive envolvido. Calculo, porém, que já tomei parte em mais de duzentos. Também não posso informar com segurança o número de vítimas que tombaram sob a pontaria adestrada e certeira de meu rifle. Entretanto, lembro-me perfeitamente que, além dos civis, já matei três oficiais de polícia, sendo um de Pernambuco e dois da Paraíba. Sargentos, cabos e soldados, é impossível guardar na memória o número dos que foram levados para o outro mundo.
Sobre as perseguições e fugas deixou claro:- Tenho conseguido escapar à tremenda perseguição que me move os governos, brigando como louco e correndo rápido como vento quando vejo que não posso resistir ao ataque. Além disso, sou muito vigilante e confio sempre desconfiando, de modo que dificilmente me pegarão de corpo aberto. Ainda é de notar que tenho bons amigos por toda parte e estou sempre avisado do movimento das forças. Tenho também excelente serviço de espionagem, dispendioso mas muito útil. Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e não em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias por mais humildes que sejam e quando sucede que alguém do meu grupo venha desrespeitar uma mulher, castigo severamente.
Perguntado se deseja deixar essa vida:- Até agora não desejei abandonar a vida das armas, com a qual já me acostumei e me sinto bem. Mesmo que assim não sucedesse, não poderia deixá-la, porque os inimigos não se esquecem de mim e, por isso eu não posso e nem devo deixá-los tranqüilos. Poderia retirar-me para um lugar longínquo, mas julgo que seria uma covardia e não quero nunca passar por um covarde.
Sobre a classe da sua simpatia:- Gosto geralmente de todas as classes. Aprecio de preferência as classes conservadoras - agricultores, fazendeiros, comerciantes, etc., por serem homens do trabalho. Tenho veneração e respeito pelos padres, porque sou católico. Sou amigo dos telegrafistas, porque alguns já me tem salvo de grandes perigos. Acato os juizes, porque são homens da lei e não atiram em ninguém. Só uma classe eu detesto: é a dos soldados, que são meus constantes perseguidores. Reconheço que muitas vezes eles me perseguem porque são sujeitados e é justamente por isso que ainda poupo alguns quando os encontro fora da luta.
Perguntado sobre o cangaceiro mais valente do Nordeste:- A meu ver o cangaceiro mais valente do nordeste foi Sinhô Pereira. Depois dele, Luiz Padre. Penso que Antonio Silvino foi um covarde, porque se entregou às forças do governo em conseqüência de um pequeno ferimento. Já recebi ferimentos gravíssimos e nem por isso me entreguei à prisão.
Conheci muito José Inácio de Barros. Era um homem de planos e o maior protetor dos cangaceiros do Nordeste, em cujo convívio sentia-se feliz.
Questionado sobre ferimentos em combate, contou:- Já recebi quatro ferimentos graves. Dentre estes, um na cabeça, do qual só por um milagre escapei. Os meus companheiros também, vários têm sido feridos. Possuímos, porém, no grupo, pessoas habilitadas para tratar dos ferimentos, de modo que sempre somos convenientemente tratados. Por isso, como o senhor vê, estou forte e perfeitamente sadio, sofrendo raramente ligeiros ataques reumáticos.
Sobre ter numeroso grupo:- Desejava andar sempre acompanhado de numeroso grupo. Se não o organizo conforme o meu desejo é porque me faltam recursos materiais para a compra de armamentos e para a manutenção do grupo: roupa, alimentação, etc. Estes que me acompanham é de quarenta e nove homens, todos bem armados e municiados, e muito me custa sustentá-los como sustento. O meu grupo nunca foi muito reduzido, tem variado sempre de quinze a cinqüenta homens.
Sobre padre Cícero Lampião foi bem específico:- Sempre respeitei e continuo a respeitar o Estado do Ceará, porque aqui não tenho inimigos, nunca me fizeram mal e além disso é o Estado do padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes e, sobretudo, porque há muitos anos protege minhas irmãs que moram nesta cidade. Tem sido para elas um verdadeiro pai. Convém dizer que eu ainda não conhecia pessoalmente o padre Cícero sendo esta é a primeira vez que venho a Juazeiro.
Em relação ao combate aos revoltosos:- Tive um combate com os revoltosos da coluna Prestes, entre São Miguel e Alto de Areias. Informado de que eles passavam por ali, e sendo eu um legalista, fui atacá-los, havendo forte tiroteio. Depois de grande luta, e estando com apenas dezoito companheiros, vi-me forçado a recuar, deixando diversos inimigos feridos.
A respeito de sua vinda ao Ceará:- Vim agora ao Cariri porque desejo prestar meus serviços ao governo da nação. Tenho o intuito de incorporar-me às forças patrióticas do Juazeiro, e com elas oferecer combate aos rebeldes. Tenho observando que, geralmente, as forças legalistas não têm planos estratégicos e, daí, os insucessos dos seus combates, que de nada têm valido. Creio que se aceitassem meus serviços e seguissem meus planos, muito poderíamos fazer.
Sobre o futuro Lampião mostrou-se incerto, apesar de ter planos:- Estou me dando bem no cangaço e não pretendo abandoná-lo. Não sei se vou passar a vida toda nele. Preciso trabalhar ainda uns três anos. Tenho de visitar alguns amigos, o que não fiz por falta de oportunidade. Depois, talvez me torne um comerciante.
Nota do entrevistador: Aqui termina a entrevista concedida por Lampião em Juazeiro. Na despedida, Lampião nos acompanhou até a porta. Pediu nosso cartão de visita e acrescentou: espero contar com os "votos" dos senhores em todo tempo!
- Que dúvida?!... respondemos.Como sabemos, Lampião, o "Rei do Cangaço", não viveu o suficiente para ver todos seus planos concretizados.

Maria Bonita


Lampião a conheceu em 1929, ela ainda uma jovem de apenas 19 anos, bela como uma flor do campo, “cheirando a leite” no conceito do “Capitão”, que já contava com 33 anos de idade. Maria Gomes (este era seu nome de batismo), também chamada carinhosamente pelos amigos de Maria Déia, casou-se aos 15 anos com o sapateiro José Miguel da Silva, conhecido como Zé Neném. Seu casamento, no entanto, não ia bem, devido às constantes desavenças do casal. Zé Neném era um turrão que não combinava bem seu temperamento com o da mulher e isso perturbava consideravelmente o relacionamento conjugal. Nessas crises domésticas, Maria ia buscar consolo nos braços de sua mãe.


Foi durante uma dessas crises que Maria Déia conheceu aquele que viria ser seu companheiro para o resto da vida. Os pais da jovem mulher – José Gomes de Oliveira e Maria Joaquina Conceição Oliveira – concordaram em apresentar a filha ao “rei do Cangaço” quando este pernoitava em sua fazenda de passagem pela Bahia. Após o jantar, Lampião demorou-se proseando com Maria numa conversa afável e franca, onde puderam trocar mesuras sobre os percalços de suas vidas.
Maria Déia ficou ligeiramente entusiasmada com o que ouvia de seu interlocutor, a ponto de esquecer até o problema familiar pelo qual estava passando. Manifestou de pronto grande curiosidade em saber detalhes da vida do cangaço esmiuçando e esticando o assunto. Queria saber de tudo. Por sua vez, Lampião não se furtou em contar-lhe algumas de suas façanhas, mostrando-se importante. Parecia uma criança gabola fazendo figura.
A conversa entre Maria Déia e Lampião rolou até que sua mãe, certamente um tanto preocupada com o andamento da prosa, entrou para levar a filha para dormir:
- Me adesculpe capitão mas é hora de Maria Déia se deitar. Amanhã vosmicês pode cuntiniá cum essa conversa, que parece ter feito bem à minha filha...
- Certamente, senhora dona Joaquina... certamente. Peço desculpa pelo meu descabimento. A noite passa depressa!... (retirando o relógio da algibeira marca Packet Philip para consultar a hora) Viche meu padim pade Cirço, como é tarde!...
E quis dar um recado para Maria, endereçando uma fala para ela interpretar como um aviso:
Temo, senhora dona Joaquina, que amanhã eu e sua filha não vamos ter a oportunidade de travar outra conversa. Sairei com meu pessoal antes do cantar do galo. Temos muito chão pela frente e só no ano que vem, quando passar novamente por essas bandas é que poderemos continuar nossa prosa, que para mim foi muito interessante. Isto é, se ela quiser e estiver disponível.
No que Maria compreendeu o recado e, debaixo do olhar sisudo mas alcoviteiro da mãe, assentou afirmativamente:
- Pode deixar que vou está aqui esperando. Venha o mais depressa que puder. Quero saber mais sobre vosmecê e tudo o resto.
Maria saiu puxando a mão de sua mãe, graciosa e saltitante, sob o olhar quase patético de Virgulino, que a olhava em sua juventude aparentemente tranqüila. Numa altura, Maria virou-se para o cangaceiro e perguntou-lhe de sofre:
- Capitão!?
- Sim!?...
- Existe mulher cangaceira?
- Não!... Acho que não!...
- Então, quem sabe em não serei a primeira?

Maria Bonita e Lampião


Uma espécie de amor à primeira vista começou ali, os dois experimentando forte atração um pelo outro. No entanto, Lampião não se deteve em demonstrar muito aceno amoroso que pudesse influenciar Maria na decisão que deveria tomar com relação a seu malfadado casamento. Manteve-se um tanto arredio nesse particular, sem pretender perturbá-la e, tampouco pretendia fazer estremecer o bom relacionamento que mantinha com sua família. Sabia-a casada e sofrendo naquele momento, portanto, não se aproveitaria da situação. Era homem rude, um bandido aos olhos de todos, mas não era de faltar com o respeito a uma senhora, principalmente se esta era casada. Guardou consigo a grande simpatia que sentiu por Maria e esperava que, quando pegasse de volta o rumo da estrada, a esquecesse, embora tenha lhe dado a esperança velada de que voltaria no ano seguinte. Era o melhor para todos – esquece-la!...

Não a esqueceu. Maria Déia também não tirou o belo cangaceiro da cabeça e, separando-se de vez do marido, esperou um ano pela volta do seu cavaleiro errante. Era assim que ela o via, nunca como um matador desalmado. Compreendia-o um perseguido da Justiça que tinha de matar e roubar para sobreviver. Via-o agora como um homem dos mais galantes e dos mais interessantes, o príncipe encantado de seus sonhos de mulher carente de amor. Zé Neném não poderia lhe dar amor; não poderia lhe dar filhos porque era estéril; não poderia lhe dar vida!... Virgulino, sim, poderia lhe dar tudo isso e muito mais: poderia lhe abrir os caminhos que levassem a outros rumos, outras esperanças que lhe fizesse mulher renascida para a vida.
Aquele ano passou para Maria Déia como uma eternidade; parecia que não ia acabar. Só sabia de seu amado o que era esmiuçado pelos livros de cordel, vendidos nas feiras para uma gama imensa de leitores. A literatura cordeliana, que se encarregava de criar estórias fabulosa, ídolos, heróis e mitos que se identificava com as aspirações do povo – João Grilo, Cancão de Fogo, Antonio Conselheiro, Padim Cirço, ou importados como: Pavão Misterioso, Pedro Malazarte, Sansão e Dalila, Princesa Megalona, Donzela Teodora – se encarregou também de criar o mito Lampião, retratado-o com forte dose de heroísmo.
As populações humilhadas viam nele um ídolo, um exemplo de justiça social, porque tirava dos ricos a soberba e aos pobres dava a oportunidade de ver quebrada a arrogância de certos proprietários de terras que menosprezava o trabalhador. Este tipo de literatura caracturava o “rei do cangaço” de maneira simpática, narrando os acontecimentos de modo a que sobressaísse o justiceiro do famigerado assassino; a valentia da vilania; com a justificativa de que sua justiça só punia coronéis, uma classe opressora que submetia o trabalhador braçal à duras penas, deixando-o à míngua; que punia o latifúndio dominante e escravizador do sertanejo, calcando-lhe em cima com a botina até virar carcaça enfiada debaixo da terra.
Eram esses versos que traziam esperança para o povo sofrido, este regozijando-se toda vez que tomava conhecimento de que os ricaços borravam-se todos quando recebiam a notícia de que Lampião em pessoa estava por perto e que vinha para lhes tomar o dinheiro que devia à pobreza. Quando alguém os lia, nas feiras, nas rodas, todos se assanhavam em volta, aclamando o heroísmo daquele que lhe lavava o peito acabando com a pose dos “coronéis de meia tigela” que se julgavam senhores absolutos de todos; que mandavam e desmandavam nos homens e nas terras.
Esse tipo de mídia camponesa, cuja penetração nos meios populares se fazia de grande repercussão fez com que Lampião passasse, de um momento para outro, de bandido a herói, lutando contra o poder dos poderosos que patrocinavam campanhas para persegui-lo e matá-lo juntamente com seu bando. Davam-no não como um salteador barato e bandido sanguinário, mas como um bravo que conseguia resistir à pressão da polícia, que vivia no seu encalço. O povo gostava de saber que Lampião mantinha poder de fogo contra as despreparadas forças militares dos Estados onde costumava agir, vencendo-as e gargalhando da ingenuidade de seus oficiais e praças, que não conseguiam atacá-lo de frente, correndo ante o perigo de serem antes massacrados.

A espera

Durante esta Maria fez planos: conversou com seus pais e os preveniu sobre sua intenção de juntar-se a Lampião, partindo com ele na primeira oportunidade que tivessem os dois de se reencontrarem. Seguiria nesse rumo e não olharia para trás.
E assim sucedeu: em 1930, portanto um ano depois do primeiro encontro, eis que Lampião reaparece quase que por encanto, cumprindo sua promessa de que voltaria. Voltou para levá-la ao mundo do cangaço. Surgiu assim de repente, sem avisar. Num dado momento em que Maria olhou sobre a janela, lá estava ele em pessoa, perfilado como um Napoleão, debaixo do frondoso pé de juazeiro que existia defronte a casa, esperando-a. O pátio estava repleto de cangaceiros, Lampião à frente e no centro do grupo, figura altiva, um Napoleão mesmo, à espera de sua Josefina; galante, engalanado de estrelas no chapéu, dentes de ouro em largo sorriso. Maria Déia correu de imediato ao seu encontro, percebendo que não se tratava de mais um de seus sonhos: correu para ele com frenesi, tirando-o de sua pose à francesa.
Ela o recebeu pronta, em Santa Brígida, na fazenda de seus pais; pronta seguir a vida do cangaço. Sabia muito bem o que lhe esperava: uma vida de nômade, em meio à caatinga braba, de cactos espinhentos, sol escaldante e chão estorricado, onde enfrentaria longas e exaustivas caminhadas pelos sertões afora, indo para lá e para cá sem rumo e sem certeza de chegar em algum lugar. Mas o seu lugar, sabia-o, estava selado pelo destino: era ao lado de seu amor. Ela sabia que seria difícil descansar o corpo para desenfadá-lo quando passasse a integrar o bando de cangaceiros; que teria de se fazer de forte e caminhar firme, sem desdém, para não atrapalhar a marcha da coluna, mas nada disso a impediria de seguir o seu caminho.
Consciente dos obstáculos pelos quais ia passar, mas com o coração batendo forte de amor pelo “Capitão”, podendo experimentar de princípio grande rejeição do bando, pelo fato de ser mulher, mesmo assim, correu ao encontro de sua felicidade.
E seguiram os dois mancebos com as bênçãos de seu José Gomes de Oliveira e Maria Joaquina Conceição Oliveira. No princípio, sua relação com o bando foi apenas amistosa mas, em pouco tempo conquistou seu espaço de ficar, passando a ser amada, respeitada e admirada por todos.
Maria Bonita foi o apelido mais justo que lhe atribuíam os homens de Lampião devido à beleza sertaneja que expandia de seu rosto redondo, de olhos vívidos e escuros, cabelos também escuros, dentes alvos e bem cuidados, pele morena clara e lábios róseos, da cor da flor de mandacaru que embelezava a vida áspera dos sertões. Era uma “muié prá cabra macho nenhum botar defeito”, baixinha, cheinha; mulher-mulher, que fez o chefe do bando, o terror dos sertões, durão, virar a cabeça para a paixão e o amor - enfeitiçado. – Maria nasceu no dia 8 de março de 1911 – feminina estação das chuvas e das flores - numa pequena fazenda em Santa Brígida, interior da Bahia. Coincidência ou não, esta data é comemorada como Dia Internacional da Mulher e em setembro de 2004, durante as festividades da Semana da Mulher foi homenageada juntamente com Dada – mulher de Corisco – com significativa homenagearam por serem consideradas rainhas do Cangaço, “como mulheres que bravamente marcaram a nossa cultura.”
Depois de Maria Bonita outras mulheres foram aceitas como membros do bando de cangaceiros: Dadá (prima de Corisco, o “Diabo Louro”, que ele foi buscar na Bahia para ser sua esposa); Silas (que foi raptada em Poço Redondo-SE por Zé Sereno, aos 13 anos e que ainda hoje vive); Dulce (amiga de infância de Maria Bonita); Maria dos Santos, que vivia com Juriti e Enedina (ama-seca da filha de Maria Bonita, ), entre outras, que passaram a integrar o bando como forma – até certo ponto heróica – de fugir da repressão familiar, ou mesmo porque foram arrancadas à força de suas casas para conviver com cangaceiros. Desse grupo de mulheres apenas Dadá participava dos combates armados. As demais, inclusive Maria Bonita, não eram exigidas no campo de batalha; eram preservadas por seus companheiros em lugares seguros, fora da linha de fogo. Carregavam armas pequenas que serviam apenas para lhes dar uma aparência guerreira.

Fim do cangaço

Lampião tomba num raso de sangue e
com ele também foi morrendo o cangaço



O jornal A Noite, do Rio de Janeiro, foi o primeiro veículo de imprensa brasileiro a noticiar, em edição extra, o fim de Lampião, Maria Bonita, sua companheira, e mais nove de seu bando de cangaceiros. A manchete de primeira página, escancarava: Morto “Lampião”. E, na matéria principal, a mensagem sucinta, enviada via telégrafo pelo 1º oficial do Tesouro de Alagoas, Durval Jerônimo da Rocha, que se encontrava em Sertãozinho, hoje Major Isidoro – próxima do acontecimento – sua cidade natal. Afirmava a mensagem:
Santana do Ipanema-AL 28/07/1938 - Urgente – “Onze bandidos, inclusive Lampião, foram mortos pela polícia alagoana, na Fazenda Angicos, em Sergipe. Abraços – Durval”. Isso foi o bastante para que o irmão do mensageiro, jornalista Melchiades da Rocha, desse jornal, que já trabalhava em cima de farto material sobre a vida do cangaço nordestino, colocasse nas bancas no mesmo dia uma edição especial. Um verdadeiro “furo” jornalístico, sem dúvida! Depois, a Rádio Nacional, emissora que à época fazia parte da mesma organização, encarregou-se de alardear a notícia para o Brasil e para mundo, já que a fama de Virgulino Ferreira da Silva havia atravessado fronteiras como o mais valente dos bandidos.
Depois de colocar a edição do seu jornal na rua, viajou incontinente para Santana do Ipanema onde se encontravam o tenente João Bezerra, comandante da volante policial que deu cabo do bando assassino, inclusive o soldado Antonio Honorato da Silva – Noratinho – que matou Lampião com um tiro certeiro de fuzil, Sebastião Vieira Sandes e Antonio Bertoldo da Silva – que tiveram a “honra” de degolar Maria Bonita e Lampião – depois da saraivada de balas que aconteceu naquela madrugada frienta dizimando o grupo de cangaceiros que atuava nos sertões nordestinos, apanhando todos de surpresa – uma emboscada bem planejada. – “Nosso comandante traçô um plano tão bem feito que ali chegemo sem sê pressentido e abafemo a banca. Depois fumo cortá as cabeças dos bandidos a mando do tenente Bezerra” – no dizer de Noratinho.

“Abafemos a banca”

Essas palavras, ditas assim, pelo homem que acabara com a vida do famigerado “rei do cangaço”, o soldado raso Antonio Honorato da Silva, o número 145 da volante policial, um não robusto, baixinho, chamaram a atenção do repórter da A Noite, que o entrevistou. Pronunciou-as “o destemido soldado, alegre, entre risos, deixando transparecer na fisionomia despreocupada e feliz uma satisfação indizível pelo gostinho que tivera de ter estourado como seu bacamarte os miolos do famoso bandido e vê-lo estrebuchar no chão.
E ele reporta: confesso, fizeram-me as palavras de Noratinho traduzir, no momento, toda a ignorância que envolve a consciência do soldado matuto, irmão do cangaceiro e do qual não tem diferença apreciável, nem mesmo na indumentária, pois ambos, apesar de servia a interesses contrários, rezam, às vezes, pela mesma cartilha: o gostinho de pegar no bacamarte é o mesmo para todos eles.

“As causas do banditismo – o mais importante
fenômeno da rude vida do sertão – são complexas e o seu estudo oferece sérias dificuldades.
Agrupamentos de muitas causas primárias e
secundárias formam, com a ausência de umas, com o conserto de outras ou com a reunião de todas, a razão da existência do tipo social do cangaceiro, alma feita de contrastes, anormalidade quase normal na primitiva e estiolada sociedade sertaneja.”

Gustavo Barroso

A trama

O grupo de cangaceiros, sob o comando do próprio Lampião, esperava pelo carregamento de mantimentos, aguardente e tabaco, que devia ser trazido de Piranhas por Pedro de Cândida, homem de confiança de Virgulino. (Era ele quem cuidava da compra de armamentos, provisões, tabaco e de tudo o resto, como roupas, calçados, chapéus – mandados fazer à moda “napoleônica/sertaneja” – de abas largas e presas sobre a parte alta da cabeça – sabonete, pentes, baton, água-de-cheiro e pó-de-arroz para as vaidosas mulheres – Maria Bonita, Dadá (mulher de Corisco), Sila, Enedina, entre outras.
Entretanto, a polícia, de sobreaviso desde que prendeu um irmão de Pedro de Cândida que, submetido a severo interrogatório confessou o que sabia a respeito da ligação deste com o grupo de bandoleiros e do local de entrega do próximo carregamento, que seria nesta noite no lugar chamado Gruta de Angicos. Preso e ameaçado de morte, caso não colaborasse com a polícia o coiteiro não relutou muito para informar o esconderijo de Lampião, no que deu a imediata reação da volante policial, partindo esta imediatamente para o local revelado na intenção de exterminar, de uma vez por todas, a “cabroeira”. A noite não poderia ser mais propícia à essa intentona, pois era de chuva.

A água caía

Chovia e fazia frio. Chuva fina, mas renitente, que caia na Grota de Angicos, às margens do rio São Francisco, lado de Sergipe, onde se arranchou Lampião e parte de seu bando. Para amenizar a situação o “Capitão” havia mandado que seus “cabras” fizessem uma fogueira e, em volta desta, todos foram se acomodando, em redes, ou mesmo enrolando-se com cobertores no chão duro, nas locas de pedras, onde arriaram as cabeças para dormir. A frieza deu-se à noite toda, varando madrugada adentro, naquele lugar ermo, de pedregulhos, carrapicho e chique-chique.
Silêncio profundo, só quebrado pelo cri-cri dos grilos e o canto rouco da Socó. Virgulino não gostava desse pássaro agourento, mas estava cansado demais para ouvi-lo às quantas vezes cantou. Protegeu-se debaixo de sua barraca e ali mesmo dormiu como uma pedra tendo ao seu lado Maria Bonita, que ficou um tanto “arisca” por causa da referência feita pelo companheiro a respeito da Socó. Mas, era certo que o traquejado homem das caatingas conhecia bem aquele lugar; conhecia-o como as palmas das mãos, onde costumeiramente pernoitava com sua gente quando estava na redondeza e precisava reabastecer o grupo de provisões. Além do mais, confiava na eficácia de Pedro de Cândida em despistar a polícia. Portanto, não havia com o que se preocupar.
A percepção e capacidade de raciocínio aguçados do “Capitão”, faziam-no seguro de si. E mais: a devoção religiosa e a fé que mantinha no poder do padre Cícero do Juazeiro, seu protetor, lhe asseguravam um repouso tranqüilo, apesar de tudo. Se tivesse que acontecer algum mal, com certeza ele pressentiria o que de ruim estava por vir. Por tudo isso, era que o bando todo confiava em seu comando. E se não mandou botar guarda naquela noite, era porque nada haveria o que se temer – pensou a mulher.
Mas, o esperto rei-do-cangaço não se dera conta do perigo que rondava sobre sua cabeça e das de seus comandados, naquela madrugada. Não, não se dera... porque, de repente, viu-se ele acuado; cercado de todos os lados por “macacos”. A volante policial comandada por seu mais ferrenho perseguidor, o tenente João Bezerra, atacou sem dar tempo de alguém sair debaixo dos cobertores e se coçar... A soldadesca saltou em cima dos cabras com todo ímpeto, sem dó e sem pena, crivando-os de balas. - Da barriga dos fuzis “papo amarelo” da polícia, espirraram incontáveis tiros, disparados quase a queira-roupa, que acabaram por trucidar parte do bando de Lampião que estava em Angicos em pouco menos de um quarto de hora.
“A chuva que caía naquele lugar facilitou em muito o trabalho da volante – disse o coronel Waldemar da Silva Góes, também um dos ferrenhos perseguidores do capitão Virgulino e seus cabras, ao ser entrevistado pelo jornalista Batista Pinheiro, do antigo e agora extinto Jornal de Alagoas, em 10/05/1982). Eram aproximadamente 5 horas da manhã quando foi dado por Bezerra a ordem de “fogo”!... A primeira a ser atingida foi a companheira do capitão Virgulino que, mesmo ferida, vendo que o cangaceiro Luiz Pedro tentava fugir, gritou-lhe: “compadre, vosmecê esqueceu a promessa feita a Virgulino? Luiz Pedro voltou para morrer junto a Lampião e Maria Bonita.”
Derrubou-se, ali, a lei do Cangaço, que ao longo de quase vinte anos imperou nos sertões da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará, espalhando pânico por onde passava na sua desenfreada fúria de matar, saquear, estuprar; esfolava qualquer um que se metesse a besta e esboçasse a menor reação. O que Lampião dissesse era lei. E se lhe negassem entregar o que tinham – dinheiro, comida, mulheres e, principalmente a hospitalidade – a coisa ficava preta: havia reação enérgica de sua parte, que dava ordem ao bando para agir sem piedade!
Mesmo assim, o acontecimento daquela madrugada, não se constitui em aterro onde se possa levantar qualquer mural ou pedestal – nem para os facínoras nem para ao que os trucidaram – sendo mais árido do que já era o chão em que se armou a trama da violência contra violência. Não pode nascer frutos do ventre daquelas terras, pois ali não se encerrou o pânico; deu-se uma desumanidade. Há controvérsia quanto o número exato de cangaceiros que estavam com Lampião naquele lugar onde se deu a embosca, já que o bando todo se constituía de 48 militantes (conforme dados confiáveis) e só 11 desses, incluindo-se Lampião e Maria Bonita, saíram dali sem vida – Enedina, “Quinta-feira”, “Caixa de Fósforo”, “Elétrico”, “Mergulhão”, “Diferente”, “Desconhecido”, “Cajarana” e Luiz Pedro.

Corisco

"O diabo louro – volta furioso
e com sede de vingança"


Enquanto Noratinho perfilava-se todo engomado para receber duas lagartixas de cabo na nova túnica, e o tenente João Bezerra recebia louros pela vitória, o cangaço sobrevivia nas caatingas pela ação truculenta de Diabo Louro – Corisco – que queria a todo custo vingar a morte de seu chefe e dos companheiros que tombaram em Angicos. As comemorações na capital – Maceió – pelo fim do cangaço tiveram que ser interrompidas para nova caçada aos bandidos que continuavam assolando no Sertão.
Diabo Louro, que conseguira fugir do cerco policial com a mulher – Dada - e alguns cabras, na madrugada sangrenta onde seu comandante fora morto e ao lado dele Maria Bonita e mais nove companheiros, invadiu a cidade de Piranhas (contrariando até a ordem expressa de Lampião enquanto vivo, que era para nenhum cangaceiro invadir as terras de Nossa Senhora da Saúde) com seus cabras e barbarizou: suspeitando que a denúncia que levou a polícia descobrir o esconderijo de Lampião na Grota de Angicos, revirara a fazenda dos Patos, naquele município, matando, de modo cruel e selvagem seis pessoas indefesas da família Ventura.

O Batalhão da Polícia Militar de Alagoas dirigiu-se imediatamente ao local da chacina, mas tudo já estava consumado. Não havia mais vidas na fazenda dos Patos. Sobre isso o repórter Melchiades da Rocha, d´A Noite-Rio, que acompanhou de perto toda a movimentação policial feita no sentido de prender ou acabar com a vida do facínora, após ouvir o vaqueiro Manoel João da Costa, cunhado e primo do também vaqueiro Domingos José Ventura, vitimado com toda a sua família pelo pretenso vingador de Lampião, escreveu a seguinte matéria que também é reproduzida em seu livro Bandoleiros das Caatingas, o mais autêntico documento sobre os últimos acontecimento da vida cangaceira:
“Ainda possuído de profundo horror e revolta, Manoel João narrou-me o desenrolar do cruento drama que fora, sem exagero, verdadeiro festim da morte. Disse-me ele que Corisco chegara já pela noite fechada à fazenda dos Patos. Eram, mais ou menos, oito horas. A chegada dos bandoleiros ali foi um praguejar diabólico. A sede de vingança dos cangaceiros era infernal. A família do velho Ventura, já recolhida, dormindo, acordara sobressaltada, assombrada mesmo. É que a desgraça, com o seu manto negro e apavorante, cobrira inesperadamente a fazenda malfadada. Gritos de chacais famintos ecoaram no seio da caatinga, revelando assim a satânica intenção dos endiabrados caravaneiros da morte!
As sombras da noite enegreceram ainda mais, adivinhado a hediondez do quadro que iam envolver. O momento era dos mais críticos. Aos sitiados inocentes desaparecera naquele instante profundamente trágico qualquer esperança de fuga. Foi nesse momento, então, que Corisco, à frente de seu terrível grupo, testa franzida, vociferando, olhos lampejantes, invadiu a casa do vaqueiro, semeando o terror entre os membros da família do velho Domingos: “Façam café para todo o pessoal!”
Em seguida, chamando à fala o velho vaqueiro e seu filho Manuel, Corisco deu ordem aos cabras para que os levassem para trás do curral. Isto foi feito imediatamente, sem qualquer gesto de resistência, sem o menor protesto por parte dos infelizes. Os dois homens foram amarrados ali mesmo e arrastados para o terreiro. O sangrento drama ia começar!
Lá no local escolhido para a chacina, Corisco, após dirigir pesados insultos às duas vítimas indefesas, às quais atribuía a autoria da denúncia que redundou no massacre de Angicos, gritou para seus homens, que já começavam a desembainhar seus facões:
- Degolem esses bandidos!
É fácil avaliar-se a expressão de amargura que se desenhou nas fisionomias dos desgraçados que iam ser imolados. Era inútil qualquer súplica àquelas criaturas infernais, que de há muito se haviam despojado dos últimos resquícios de piedade humana.
Os cangaceiros sorteados para carrascos apresentavam-se ensuarados para a empreitada macabra, que deveria ser consumada instantes depois. Brilharam os instrumentos da morte. As lâminas afiadas dos facões de carreiros entraram em ação e duas cabeças tombaram por terra, ensopando-a de sangue.

Mais duas cabeças

Não satisfeitos em sua insaciável sede de vingança, Corisco e seus desalmados companheiros tornaram a praguejar em altos brados, amaldiçoando mundos e céus, e, em seguida, voltaram à casa da fazenda, onde os demais cangaceiros ficaram guardando os outros moradores.
O manto negro do desespero envolveu aquelas pobres e inocentes pessoas, ao verem, de volta, a figura sombria e apavorante do vingador do Rei do cangaço, cujo semblante revelava ainda ódio medonho. Momentos depois, infelizmente, chegava a vez de dois outros filhos do vaqueiro: José, ainda solteiro, e Odon, já casado.
Os facínoras, como haviam feito ao velho Domingos e a Manuel, conduziram-nos ao terreiro e ali, berrando impropérios, cortaram-lhes as cabeças tambpem, pondo à prova satânica maestria de assassinos.

Agora, as mulheres!

- Agora as mulheres! – gritou Corisco para a cabroeira sanguissedenta, que já arrastava pelos cabelos a mulher e a filha do vaqueiro, Guilhermina Nascimento Ventura e a jovem Valdomira Ventura.
- Vocês duas vão pagar a morte de Maria Bonita e Enedina! – disse Corisco, atirando um olhar ameaçador às duas infelizes sertanejas.
- Valei-me minha Nossa Senhora! – Pelo amor de Deus não me mate, seu Capitão!
Estas palavras, certamente, cortaram o espaço naquele instante doloroso e tremendo! Não obstante, tudo foi em vão, pois o ódio anulava qualquer sombra de piedade que por acaso passasse na alma dos algozes de Guilhermina e Valdomira.
As duas mulheres foram, num instante, brutalmente arrastadas para fora de casa e, com a sua impassibilidade desumana, bestial, Corisco, o feroz Diabo Louro, ordenou a matança.
Eram mais duas cabeças ainda que caíam ao solo, ensangüentadas!

O baile da morte

Parecia, então, aplacada a cólera incontida do terrível cangaceiro. Seis cabeças, ao todo, encontravam-se ali, imobilizadas, numa expressão de angústia e sofrimento indescritível. Mas, nada daquele quadro horripilante comovera o bandoleiro vingativo e impiedoso.
Grutos bestais, satânicos, atroavam o ar. Era o desabafar dos ferozes quadrilheiros saciados. Voltaram mais uma vez à casa de Domingos – o defunto Domingos, aliás – em meio a uma algazarra infernal. Foi então que Corisco deu as últimas ordens para o remate da tremenda desforra a que se propusera.
A modesta casa da fazenda dos Patos foi transformada em tavolagem, em sala de dança também, como se diz naquelas paragens. Exaltados pelo excesso de aguardente, entregaram-se os cangaceiros a desenfreadas manifestações de contentamento, dançando e cantando como se estivessem num “pagode” de verdade. Um dos cabras trazia com ele uma viola e outro um realejo, instrumentos com que animaram o baile da morte, o festim da degola, epílogo tremendo do pavoroso e indescritível espetáculo de sangue que atingiu as culminâncias da monstruosidade!

O presente macabro!

Dando-se por satisfeito, e não era para menos, Corisco transmitiu ordens para o saque geral da fazenda, e depois bateu em retirada, já se pressa, dirigindo-se, então, para a fazenda Pedrinhas, de propriedade do Cel. Antonio José de Brito, vulgo Antonio Menino, a quem pertence também a fazenda sinistrada.
Ali, Corisco redigiu um bilhete injurioso para o tenente João Bezerra, enviando-lhe, nesta ocasião, as cabeças de suas vítimas.
Fazendo entrega do referido escrito ao portador do “presente macabro”, que foi o velho João Crispim de Morais, Corisco disse-lhe:
- Vá entregar isso ao tenente Bezerra. Diga a ele que faça uma fritada. Na falta dele, entregue ao Prefeito João Correia Brito”.

Poupados para contar a história

Os cangaceiros deixaram vivos os três filhos menores do vaqueiro assassinado – Silvino e Carmelita e Antonio, de 10, 11 e 12 anos. Ao despedir-se de Morais – portador da horrível encomenda – Corisco desfechou:
- “Os meninos ficam para contar a história, mas breve voltarei aqui para mata-los, pois faço questão de liquidar com toda a raça desse vaqueiro traidor que nos denunciou para os “macacos”.

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Conta-se que Corisco – o “Diabo Louro” – lugar-tenente de Lampião – teve também seu fim dois anos mais tarde. O soldado Zé Rufino seguia a sua trilha numa ardilosa e demorada caminhada até às proximidades de Minas Gerais, para onde se embrenhou o facínora e a mulher Dada, valente guerreira do cangaço. Zé Rufino teria contratado três investigadores baianos para ajudá-lo na “empreitada” e os quatro acabaram com a vida do temido cangaceiro, que estava desarmado.
Soube-se que Rufino, antes de o matar, tomou deste 500 contos de réis. Entretanto, o militar garantiu que estava trazendo o bandido preso, mas devido aos ferimentos, veio a falecer no caminho, por não suportar a viagem (?)...

Os sobreviventes

Dadá – também saiu com vida do tiroteio de Angicos, mas com graves ferimentos de bala em uma das pernas, por isso teve que amputá-la posteriormente. Depois da morte do companheiro retornou à Bahia e viveu até 1994, portanto depois de 56 anos. Era de batismo Sérgia Ribeiro da Silva, nascida em Belém/PR, no dia 15 de abril de 1915. Morava na Bahia quando seu primo a levou para o bando de Lampião. Mulher bonita, robusta –1,70 – e de muita valentia, era admirada por todos do bando. Sua destreza em pegar em arma era igual a qualquer um dos melhores homens do bando, fazendo-se de grande bravura todos os momentos que o grupo de Lampião teve de lutar para sair do cerco policial.
Silas e Zé Sereno, foram também dos que escaparam e, depois de algum tempo, mais precisamente em 1947, foram para São Paulo, onde Sereno conseguiu colocação como funcionário público. Morreu em 1982, e Sila continua viva. Conta que, “para não morrer, corri entre xiquexiques e catingueiras, mas fiquei com as pernas em carne viva.”
Atualmente, vive no interior de São Paulo, na cidade de Rio Claro. Seu nome verdadeiro: Ilda Ribeiro de Souza, beirando a casa dos 80 anos. É uma mulher forte, vivaz, que emprega seu tempo fazendo palestras sobre o bando de cangaceiros e sobre o trágico desfecho daquela fatídica manhã, onde tombaram seus companheiros. Todas as noites canta e conta as histórias do cangaço para turistas, sobrevivendo disso e de uma pequena aposentadoria como costureira. Seus relatos atraem gente de todas as idades. Em uma sala desse centro de cultura, ela reuniu fotos, livros que escreveu e fitas de vídeo sobre a vida cangaceira.
Relembrar o passado não a incomoda, diz. “As lembranças estão vivas na memória como um filme que não para de rodar. Revejo as cenas todos os dias. É impossível esquecer.” Sila tinha 13 anos e ainda brincava de boneca quando Zé Sereno a levou à força para viver com ele, isto em 1936. Ela lembra que a vida na caatinga era vida de cão, mas que sente saudade dela. “Tempos ruins, mas que a gente suportava por não ter outro jeito. Sempre sonho fugindo com os tiros dos soldados. Tenho saudade de Lampião, Maria Bonita, de Dadá, que eram verdadeiros amigos. O Lampião que vocês conhecem através do escrevem sobre ele não é o mesmo que eu conheci. Nunca o vi praticar qualquer tipo de selvageria. Ele era o Robin Hood do Nordeste. Um homem bom, sensível, que ajudava os mais necessitados e honrava a palavra empenhada. A palavra dele era lei, por isso assenta-lhe bem a expressão “rei do Cangaço. Ele era um rei mesmo!”
Sobre a violência daqueles tempos ela assegura que em comparação com a violência urbana de hoje, não representa um mínimo. “A violência hoje é maior que a do tempo do cangaço. Já fui assaltada várias vezes e tenho medo de sair de casa.

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